Cordoma: possibilidade de tratamento efetivo no Brasil

Radioterapia de Alta Dose com IG-IMRT

Publicado em 21/08/2026

O que é o cordoma

O cordoma é um tumor ósseo raro, originado de restos de um tecido embrionário chamado notocorda. Pode surgir em qualquer ponto ao longo do eixo da coluna — da base do crânio ao sacro [1,2]. Embora seja considerado um tumor de crescimento geralmente lento, tem comportamento localmente agressivo: invade estruturas vizinhas e, se não tratado adequadamente, pode causar destruição local progressiva e comprometimento de estruturas nervosas [2].

Sua incidência anual é de cerca de 1 caso para cada 1 milhão de pessoas [2]. Por ser tão raro, não existem estudos randomizados que orientem o tratamento — a maior parte da evidência vem da experiência institucional de centros especializados, o que reforça a importância de o paciente ser avaliado em centros de referência.

Avaliação multidisciplinar

Pela localização delicada — próxima ao cérebro, ao tronco cerebral, aos nervos cranianos, à medula espinhal ou a órgãos pélvicos —, o tratamento do cordoma deve ser discutido em conjunto por uma equipe multidisciplinar, com decisões tomadas de forma compartilhada em cada etapa.

De forma geral, a base do tratamento combina:

  1. Cirurgia, com ressecção em bloco ou buscando a maior ressecção possível, respeitando a função neurológica;
  2. Radioterapia adjuvante (após a cirurgia) ou, em casos selecionados, radioterapia definitiva, quando a ressecção completa não é possível ou aceitável para o paciente [2,3].

Dependendo da localização, é comum que permaneça doença residual após a cirurgia; nesses casos, a radioterapia em alta dose tem papel fundamental no controle da doença [1-3].

Radioterapia de Alta Dose com IG-IMRT: por que a dose é importante

O cordoma é classicamente considerado um tumor radiorresistente. O padrão-ouro de radioterapia é o tratamento com partículas pesadas (prótons ou íons de carbono), com doses definidas em consenso internacional de pelo menos 74 Gy, em frações de 2 Gy por dia, ou dose equivalente hipofracionada [2].

O Brasil, até o momento, não dispõe de terapia com prótons ou outras partículas pesadas. Historicamente, os pacientes eram tratados com fótons em baixa dose, insuficientes para o controle adequado da doença. Isso gerou grande ceticismo em relação à radioterapia no cordoma: mesmo após ressecções incompletas, havia pouco interesse em encaminhar os pacientes para tratamento radioterápico no Brasil [1].

Em 2012, o Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP) iniciou um programa multidisciplinar de radioterapia de alta dose com fótons, guiada por imagem e com modulação da intensidade do feixe (IG-IMRT). Utilizando essa tecnologia, radio-oncologistas foram capazes de “esculpir” a dose no tumor com precisão milimétrica e entregar doses equivalentes às da terapia com prótons [1,3]. Os resultados dessa experiência foram publicados por este autor e demais especialistas em 2022 [1]. O trabalho desenvolvido representa, até onde sabemos, a maior casuística brasileira de tratamento multidisciplinar de cordomas com radioterapia moderna já publicada [1].

cordoma cervical, curvas de isodoses de radioterapia
Cordoma cervical tratado com 78 Gy.
As curvas de isodoses mostram em cores quentes o tratamento do tumor; na região posterior, a medula espinhal é poupada.

Essa abordagem altera radicalmente as perspectivas dessa doença desafiadora. Pacientes que antes tinham poucas opções terapêuticas e evoluíam precocemente com paraplegia ou tetraplegia podem, hoje, receber em solo nacional um tratamento agressivo, com possibilidade real de controle da doença e preservação da qualidade de vida.

Mensagem final

O cordoma é uma doença rara que demanda avaliação multidisciplinar por profissionais especializados. A radioterapia de altas doses, guiada por imagem e com técnicas de modulação de intensidade do feixe (IG-IMRT), permite alcançar uma distribuição de dose no tumor semelhante à obtida com prótons, sendo uma opção nacional consistente que deve ser considerada.

Leia também

Cordoma: afinal, o que é radioterapia de alta dose?

 

Links externos

Diretório de Médicos Especialistas Listados no Chordoma Foundation (em inglês)

 


Referências

  1. Chen ATC, Chur Hong CB, Narazaki DK, Rubin V, Serante AR, Ribeiro Junior U, Lima LGCA, Coimbra BGMM, Cristante AF, Teixeira WGJ. High dose image-guided, intensity modulated radiation therapy (IG-IMRT) for chordomas of the sacrum, mobile spine and skull base: preliminary outcomes. J Neurooncol. 2022;158:23–31.
  2. Stacchiotti S, Sommer J, on behalf of the Chordoma global consensus group. Building a global consensus approach to chordoma: a position paper from the medical and patient community. Lancet Oncol. 2015;16:e71–e83.
  3. Sahgal A, Chan MW, Atenafu EG, et al. Image-guided, intensity-modulated radiation therapy (IG-IMRT) for skull base chordoma and chondrosarcoma: preliminary outcomes. Neuro Oncol. 2015;17(6):889–894.