Criado em 27/08/2026
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Previamente falamos sobre a possibilidade de tratamento dos cordomas com radioterapia de alta dose com fótons, guiada por imagem e com modulação da intensidade do feixe (IG-IMRT). Caso não tenha lido, cordoma: possibilidade de tratamento efetivo no Brasil e depois volte para este texto.
Passaremos a definir com mais detalhes o que significa radioterapia de altas doses no tratamento dos cordomas. O texto abordará detalhes técnicos importantes, que impactam diretamente a chance de controle ou não da doença. À primeira vista, o leitor pode ser tentado a pular os dados técnicos, mas essas informações são essenciais para que os pacientes compreendam a necessidade de um tratamento agressivo, bem como os riscos e benefícios associados. Tentarei escrever na linguagem mais acessível possível.
Dose mínima no tumor e dose em órgãos sob risco
O Consenso Internacional de Abordagem de Cordomas, publicado no The Lancet Oncology em 2015, define que o tumor deve receber dose de pelo menos 74 Gy, em frações de 2 Gy por dia, para controle local adequado [1].
A dificuldade está na proximidade de órgãos sensíveis, que toleram doses bem menores. O principal exemplo de órgão de risco é a medula espinhal, responsável por levar a informação do cérebro para o controle e a movimentação dos membros. A prática histórica restringia a dose na espessura total da medula a 45 Gy [2]; posteriormente, estudos como o QUANTEC estabeleceram como padrão a dose de 50 Gy na espessura total da medula (risco de mielopatia de 0,2%) [3].
O problema é que a medula está a poucos milímetros do corpo vertebral, local onde geralmente se inicia o cordoma. É fisicamente impossível, mesmo com prótons, entregar 74 Gy ao tumor e manter a dose na medula em apenas 50 Gy.

A saída encontrada pelos médicos dedicados ao tratamento de cordomas foi tolerar mais dose na periferia (a “casquinha”) da medula, para aumentar as chances de controle do tumor. Tolerar mais risco significa aceitar uma maior chance de complicações em troca de chances reais de controle tumoral. Esse risco calculado foi desenvolvido inicialmente na terapia com prótons [4]. Com a modernização dos sistemas computacionais e de imagem, ele foi posteriormente transposto para a radioterapia de alta dose com fótons, guiada por imagem e com modulação da intensidade do feixe (IG-IMRT) [5].
Resumo dos parâmetros recomendados para radioterapia de cordoma [1]
| Parâmetro | Valor mínimo/recomendado |
|---|---|
| Técnica | IMRT / VMAT com IGRT diário |
| Fracionamento padrão | 2,0 Gy/dia |
| Dose mínima para controle local | ≥ 74 Gy |
| Dose máxima medula espinhal (cervical) | 67 Gy (superfície) |
| Dose máxima medula espinhal (torácica/lombar) | 63 Gy (superfície) |
Para a maior parte dos radio-oncologistas, doses de 63 a 67 Gy na medula causam grande desconforto, pois uma lesão inadvertida pode levar a paraplegia ou tetraplegia. Caso haja sobredose na mdula, o déficit não é imediato. Ele pode surgir num intervalo de cerca de 6 meses a anos.
Por outro lado, infelizmente já testemunhei diversas situações em que doses insuficientes de radioterapia levaram à progressão tumoral, perda de função neurológica, dor não controlável e, por fim, óbito.
“Dá para começar de leve e depois fazer mais dose se não resolver?”
É comum que, após uma explicação franca e cuidadosa sobre as complicações possíveis da radioterapia com altas doses, os pacientes com cordoma sintam receio em relação ao tratamento. A pergunta natural é: “doutor, é possível fazer um tratamento inicial mais brando e depois intensificar, a depender da resposta?” A resposta simples para os pacientes que desejam um tratamento curativo é “não”. O primeiro tratamento (cirurgia e/ou radioterapia) é o que define as chances reais de controle tumoral a longo prazo.
No caso da radioterapia, uma dose insuficiente no tumor, em geral, já terá entregado de 60% a 90% da dose de tolerância da medula. Isso significa que, apesar de haver alguma recuperação da medula espinhal ao longo do tempo, não há margem para entregar um tratamento curativo sem risco de perda de função neurológica. E, pior, na série do ICESP, nenhum paciente que recebeu um tratamento inicial subótimo conseguiu, mesmo com tratamento de resgate de última geração na instituição, obter controle duradouro do tumor [5]. Em resumo, é o primeiro tratamento que determina se o tumor será ou não controlado.
Mensagem final aos pacientes
Sei que boa parte do que foi descrito aqui pode parecer assustador: números de dose, riscos na medula, a ideia de que não há uma segunda chance para “acertar” o tratamento. Mas é importante terminar com uma mensagem de perspectiva real.
Hoje, o cordoma tem tratamento no Brasil. Diferente de décadas atrás, quando a radioterapia disponível não era capaz de controlar a doença, atualmente é possível planejar e entregar, com riscos calculados, a dose necessária para buscar o controle definitivo do tumor. A experiência acumulada em centros como o ICESP mostra que pacientes tratados adequadamente, desde o início, têm uma chance real de controlar a doença e preservar sua qualidade de vida e função neurológica.
Por isso, o caminho mais seguro é buscar avaliação em um centro com experiência multidisciplinar no tratamento de cordomas, logo no início do diagnóstico. O primeiro tratamento é o que conta mais — e, quando bem planejado, ele pode ser decisivo para um bom resultado a longo prazo. Você não está sozinho nessa jornada: existe uma equipe preparada para te acompanhar em cada etapa, com conhecimento técnico e, acima de tudo, com o cuidado que essa doença rara exige.
Leia também
Cordoma: possibilidade de tratamento efetivo no Brasil
Links externos
Diretório de Médicos Especialistas Listados no Chordoma Foundation (em inglês)
Referências
- Stacchiotti S, Sommer J, on behalf of the Chordoma global consensus group. Building a global consensus approach to chordoma: a position paper from the medical and patient community. Lancet Oncol. 2015;16:e71–e83. DOI: 10.1016/S1470-2045(14)71190-8
- Emami B, Lyman J, Brown A, Coia L, Goitein M, Munzenrider JE, Shank B, Solin LJ, Wesson M. Tolerance of normal tissue to therapeutic irradiation. Int J Radiat Oncol Biol Phys. 1991;21:109–122. DOI: 10.1016/0360-3016(91)90171-Y
- Kirkpatrick JP, van der Kogel AJ, Schultheiss TE. Radiation dose–volume effects in the spinal cord. Int J Radiat Oncol Biol Phys. 2010;76(3 Suppl):S42–S49. DOI: 10.1016/j.ijrobp.2009.04.095
- Munzenrider JE, Liebsch NJ. Proton therapy for tumors of the skull base. Strahlenther Onkol. 1999;175(Suppl 2):57–63. DOI: 10.1007/BF03038890
- Chen ATC, Chur Hong CB, Narazaki DK, Rubin V, Serante AR, Ribeiro Junior U, Lima LGCA, Coimbra BGMM, Cristante AF, Teixeira WGJ. High dose image-guided, intensity modulated radiation therapy (IG-IMRT) for chordomas of the sacrum, mobile spine and skull base: preliminary outcomes. J Neurooncol. 2022;158:23–31. DOI: 10.1007/s11060-022-04003-w